João Santana

“O nosso bioma chamado cerrado
Tem paca, tatu e tem tamanduá
Tem onça pintada, tem lobo guará
Nascente bonita tem pra todo lado
Ipê amarelo todo ornamentado
Sombra de pequi pra se admirar
E no tempo da seca começa a queimar
Que os tolos não têm mínimo coração
E o verde se torna cinzas sobre o chão
Nos dez de galope da beira do mar.”

Entrevista com o cantador repentista João Santana Mauger, morador de Lago Norte-DF.

Encontro realizado no Núcleo Rural Boa Esperança 2, Sítio Canto do Rouxinol, Lago Norte-DF, dia 16 de maio de 2018.
Entrevistadores: Domingos de Salvi, Sara de Melo, Daniel Choma e Tati Costa.
Transcrição: Tati Costa. Fotos e editoração: Daniel Choma.

João Santana nasceu em Brasília-DF, em 24 de abril de 1979.


Domingos
: Onde você nasceu?

João: Eu sou brasiliense, nasci em Brasília.

Domingos: E seus pais vieram de onde?

João: A minha mãe veio de Teresina, Piauí, família toda piauiense. Meu pai já nasceu aqui em Anápolis e é filho de uma mistura também, que a minha avó é paulista e meu avô é americano.

Domingos: E da sua família tinha alguém que tinha alguma ligação com a música, Cantoria, enfim?

João: Com Cantoria especificamente não. O meu pai é músico, ele compõe, toca violão. Agora minha mãe gostava de ouvir, então ela tinha muitos discos, esses vinis, aqueles bolachões antigos. Foi aí que eu tive o meu primeiro contato com a Cantoria.

Domingos: E nessa sua época de infância, como que era Brasília?

João: Eu nasci aqui em Brasília, mas a minha primeira infância foi na fazenda, aqui perto, em Alexânia. E depois viemos pra Brasília. Aquela época não tinha essa coisa de hoje, de celular, tanta divulgação de notícia, de medo espalhado. Então as crianças eram mais livres, as pessoas tinham menos paranoias, menos medo de fazer as coisas. Hoje em dia todo mundo tem muito medo porque as notícias ruins se espalham e se reproduzem milhões de vezes. A impressão que eu tenho é que o mundo não está mais perigoso, está do mesmo jeito que era antes, só que o medo realmente está muito presente. E aí tem o celular, tem outras coisas que também facilitam a insegurança. Então a gente vê que as pessoas têm uma tendência a serem um pouco paranoicas hoje em dia. Antigamente era uma cidade que não tinha toda essa coisa. Hoje em dia, você anda em qualquer lugar, você não vê criança na rua quase em nenhuma das cidades de Brasília. A não ser aqueles lugares que ainda guardam uma característica interiorana.

Domingos: E você começou a ver Cantoria em Brasília? Como foi que você se aproximou da música?

João: Eu ouvia esses discos que a minha mãe tinha e comecei a experimentar, eu gostava de fazer esses versos de improviso, rimando. Segundo meu pai eu comecei mesmo a improvisar com ele… Ele tocando violão eu ficava cantando Repente, brincando de improvisar versos comigo, quando eu era pequenininho. Mas eu ouvia esses discos, alguns deles que marcaram época na Cantoria. Aqueles discos do Ivanildo Vila Nova com o Geraldo Amâncio e com Severino Feitosa, com Sebastião Dias… Acho que aqueles discos ali influenciaram muito as gerações que começaram a vir num segundo momento. No caso do Chico de Assis, Ismael Pereira, Os Nonatos, Edmilson Ferreira, outros cantadores tiveram um pouco de influência desses momentos áureos aí da Cantoria, que ela veio se transformando. Então eu tive acesso a esses discos, gostava de fazer alguns versos, até que um dia eu estava andando ali pelo setor comercial e reconheci uma voz: era o Geraldo Mouzinho, cantador de Coco. Que ele tem uma voz característica, não sei se você conhece algum material gravado dele, mas ele tinha um problema na garganta assim, uma voz bem característica. Acho que é porque ele fumava muito, não sei se é isso. Aí eu reconheci aquela voz, porque há poucos dias eu e um amigo meu tínhamos comprado um CD com uma coletânea com vários cantadores de viola, e também tinha uma faixa dele. Eu me lembro que nesse CD tinha “Os Nonatos” e tinha uma do Geraldo Mouzinho e Cachimbinho. Foi uma coletânea da Rádio Atual de São Paulo, que chegou a lançar umas coletâneas, alguns discos. E a gente ficou ouvindo aquilo ali… Quando ouvi aquela voz, reconheci, falei com ele: “ah, eu também faço versos e tal…” E mostrei pra ele algumas coisas. Ele falou: “ó, vai ter um festival de repentistas na Casa do Cantador”. Eu nunca tinha ido lá, não conhecia, então fui. Lá, naquela ocasião, depois do festival teve uma Cantoria. Acontecia muito isso, às vezes terminava o festival e eles faziam mais uma Cantoria de pé de parede. Foi João Paraibano e Ismael Pereira. Eu já conhecia um pouco mais do trabalho do Ismael por aqueles CDs dos desafios lá da Umes. E fiquei impressionado com João Paraibano, como ele cantava bem. E aí, depois dessa Cantoria, o Gonçalo que era o diretor na época abriu um espaço. Então eu e esse amigo meu que é o Gustavo Abreu, a gente foi e fez uns Repentes lá. E o Ismael veio, me procurou depois da Cantoria e falou: “olha, você está começando melhor do que muitos de nós. Entre em contato com o Chico de Assis aqui em Brasília”. Me passou o contato do Chico e me falou: “o Chico está precisando de um cantador que possa fazer parceria com ele em alguns tipos de eventos, eventos mais politizados, mais intelectuais”. Eu era universitário na época, o pessoal chamava de “os cantadores universitários” [Risos.] “E você pode suprir essa lacuna porque aqui ele não tem nenhum cantador que possa fazer esse trabalho com ele”. E daí começou um contato e eu comecei a fazer algumas apresentações aqui em Brasília com o Neildo Rodrigues, hoje Zé do Cerrado, e com o Chico [de Assis], fazendo umas coisas. E fui me aperfeiçoando até que me profissionalizei mesmo.

Domingos: E com a viola, como foi? Nessa época você já tocava viola também?

João: Eu tocava violão. Então eu fui buscar a afinação da viola, pois ela é diferente também. Eu já tive uma viola caipira, só que essa aqui [aponta para sua viola com encordoamento adaptado de viola nordestina] é outra coisa. Outra afinação, ela é mais parecida com a do violão. [Toca a viola com as cordas soltas.] Então quer dizer que você vê o Lá, só que aqui é um Lá triplo. Duas oitavas. Aqui o Ré. Aqui um Sol oitavado. Si oitavado. Um Mi. A gente toca sempre em Lá. Existe um padrão, baião padronizado, que é isso aqui. [Toca um baião de viola, instrumental.] Com algumas pequenas variações. Essa padronização é um estudo interessante a ser feito, como é que foi isso. Porque quando a gente ouve coisas mais antigas, você vê que cada cantador talvez tivesse o seu estilo de fazer o baião. Até porque não tinha uma facilidade de gravar, de alguém ouvir. Então tinha uma coisa mais ampla… Mas aí foi se padronizando e isso facilita um cantador que não conhece o outro se encontrar e não ter problema de ritmo, pra fluir bem a Cantoria. Porque na Cantoria o principal são os Repentes feitos ali, aquelas estrofes, aqueles versos. A viola ela está aqui como uma base. Como se fosse a um show da Elis Regina: aquela música faz toda diferença, mas o principal é a voz da Elis Regina. Então, no caso do show de Cantoria a viola inspira o cantador, ela faz parte de todo um ritual, mas o produto que vai dizer se o cantador é bom ou não é o improviso dele, não tanto a habilidade dele na viola.

Domingos: E quem foi uma referência, ou um mestre?

João: Conheci cantadores nesse período em que eu tive esse contato na Casa do Cantador. Tanto eu quanto o Gustavo, de quem falei aqui. E tinha outros amigos nossos também que eventualmente iam conosco, algumas Cantorias. E então a gente tinha esse contato com esses cantadores e foi observando e foi tentando reproduzir. Então não teve especificamente um ou outro, até porque alguma coisa é simples… [Toca um baião de viola.] Um ponto que é muito difícil no começo para a pessoa que vai tocar o baião de viola, é porque essa batida nossa aqui é no contratempo… [Toca um baião de viola.] Aqui, eu estou no contratempo, então quando a pessoa não capta isso, na hora que ele termina ele bate no tempo. Aí dá aquela quebra… Mas é algo que pela audição não tem grande mistério. Tem também os dedilhados – o Ismael mesmo sabe fazer uns dedilhados de uns sons muito bonitos na viola. O pai dele era repentista, do Ismael Pereira, esse que foi o que me pôs em contato com o Chico e disse que era conhecido por tocar muito bem a viola. Então eu acho que ele captou isso, ele faz uns dedilhados bonitos. Antigamente, diziam que o pessoal tocava batendo na viola. Fazia… [Exemplifica tocando a viola.] Batendo! Tinha o Sebastião da Silva, era um cantador que gostava de fazer um baião também com essa batida aqui… [Toca viola.] Isso com captação às vezes sai mais alta essa batidinha. Mas basicamente é isso. Inclusive, é interessante que na Cantoria de viola você tem dois ritmos pro improviso: um é esse baião. [Toca na viola o baião de viola.] E o outro é o balançado. [Toca na viola o balançado.] E aqui também tem as variações. Eu mesmo consigo fazer ele assim mais linear, tem uns que fazem ele de outra forma. Ou às vezes quando a gente vai gravar uma coisa com Coco e tudo, aí põe a viola fazendo um… O Chico mesmo faz um outro balançado… [Toca a viola.] Mas isso numa Cantoria você não vai ver. Isso a gente faz já nos jingles ou gravações que a gente produz às vezes. A gente faz jingles, materiais ligados à arte-educação e aí mistura também, a gente faz alguns com ritmo de embolada.

Domingos: E quando você fala em “balançado”… Ele é diferente da canção?

João: É diferente da canção. Cada canção vai ter sua batida própria, sua harmonia própria. Em geral em um campo bem comum, sem grandes inovações de harmonia, mas aí cada autor de canção, conforme sua interpretação e sua habilidade na viola, vai fazer um charmezinho diferente. O próprio Ismael, de quem eu falei, faz isso muito bem. Tem cantadores que… Eu e Chico de Assis, por exemplo, a gente não canta canção. A gente faz só Repente mesmo e declama alguns poemas, a nossa apresentação é isso. É com improviso e declamação de poemas.   (Continua…)